Um ano sem Suassuna

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Ariano Suassuna dedicou a vida inteira à criação do próprio universo artístico. Ao morrer, há exatamente um ano, o dramaturgo e romancista deixou bastante material a ser decifrado, sorvido, vivenciado. Até o fim, manteve-se perfeccionista. Burilou e fez ajustes não somente no livro considerado “a síntese de toda a obra” – O jumento sedutor, ainda inédito –, mas em todo o conjunto da produção artística, chamado por ele de A ilumiara. O cuidado com os detalhes iria reforçar a ideia de complementaridade, como se cada criação de Ariano fizesse parte de algo maior. E fazia.

Ao longo das três últimas décadas, o professor e pesquisador Carlos Newton Júnior se tornou especialista na obra de Ariano Suassuna. Sob o viés acadêmico, analisou o universo armorial do escritor, assunto de seu mestrado e doutorado. Na vida pessoal, teve acesso a informações e momentos que estudioso algum voltará a ter. Amigo do ídolo, era tratado como alguém da família e, por isso, recebeu tarefas como a de transcrever os manuscritos do derradeiro livro de Ariano.
“Tive o privilégio de ter acesso aos arquivos de Ariano, e a gente conversava muito, eu sempre dizendo o que achava. Conhecia a caligrafia dele, e por isso digitei O jumento sedutor nos últimos quatro ou cinco anos. No computador, era mais fácil fazer alterações”. Para Carlos Newton Júnior, não se trata de um livro simples, e sim para poucos leitores, assim comoGrande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa. “Só mergulha nesse universo o leitor mais maduro. Este é um livro para leitores de Ariano”.
Debruçado sobre a mesma obra desde 1981, Ariano chegou a anunciá-la como espécie de continuação de Romance d’A pedra do reino, cujo enredo deveria ser conhecido previamente. Por isso, fez alterações na edição mais recente do livro lançado pela primeira vez em 1971. O título completo passou a ser A ilumiara – Romance d’A pedra do reino – Introdução ao romance de Dom Pantero no palco dos pecadores, uma referência ao protagonista de O jumento sedutor.

Enxertados no livro mais recente, frisa Carlos Newton Júnior, também estão vários poemas escritos por Ariano Suassuna há muitos anos. Essa é uma das explicações para a ausência de obras de poesia na bibliografia do dramaturgo. “Ele postergou a publicação desses textos porque estava incluindo nessa última, que é toda em diálogos, com os personagens declamando”. Segundo a agência literária Riff, responsável pela obra de Ariano, e Dantas Suassuna, um dos filhos do escritor, ainda não há previsão para o lançamento.

TRÊS PERGUNTAS >>> Carlos Newton Júnior

Sobre O jumento sedutor, qual sua expectativa no que diz respeito à recepção do público e da crítica?
É um livro para poucos leitores a cada geração, assim como outras grandes obras, a exemplo de Grande Sertão: Veredas. Só mergulha nesse universo o leitor mais maduro. Este é um livro para leitores de Ariano. Ele próprio dizia que A pedra do reinoé uma espécie de introdução. Você precisa conhecê-la para entender O jumento sedutor, que é uma continuação – não no plano original, de uma trilogia, mas uma continuação.

Além desse, que outros textos inéditos foram deixados por Ariano? Qual a importância deles?
Ele deixou muita coisa inédita. Da década de 1950, há muitas críticas literárias publicadas no jornal Folha da manhã, hoje extinto. Além do vasto número de poemas, há peças de teatro anteriores ao Auto da Compadecida, romances inéditos, como O sedutor do Sertão, escrito na década de 1960, antes de A pedra do reino. Ele tem um espólio grande, e naturalmente isso vai saindo aos poucos. Como disse uma vez Jarbas Maciel (um dos fundadores do Movimento Armorial), a obra de Ariano só pode ser compreendida através de uma visão sistêmica. Você só pode entender o romance se também fizer uma incursão pelos poemas, pelo teatro. Os gêneros dialogam. Um gênero joga luz sobre outros.

Depois da morte de Ariano, como fica o Movimento Armorial? Gerou frutos? Continua vivo?
Algumas pessoas enxergam o Movimento Armorial como algo fechado. Não vejo assim. É algo que sugere aos artistas um mergulho na tradição, aponta uma direção para cada um percorrer o próprio caminho. Isso pode ser visto na gravura de Samico, que é armorial, e voltada para o diálogo com a gravura popular. O Movimento Armorial não é um grupo que se reúne, mas tem princípios seguidos por vários artistas. Você encontra artistas em várias partes do Brasil que continuam inspirados e influenciados pelo Movimento.

Fonte: Diário de Pernambuco
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