Segundas Intenções com Bernardo Kucinski

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A Biblioteca Parque Villa-Lobos (BVL) promoveu a edição de junho do Segundas Intenções com o escritor Bernardo Kucinski. O bate-papo aconteceu no dia 10, às 11 horas e teve a mediação do curador do programa Manuel da Costa Pinto. Jornalista e cientista político, ele estreou na ficção aos 74 anos com o romance K – Relato de uma busca, finalista de vários prêmios literários e publicado em oito línguas. Isso serviu para Manuel chamar ele de “mais velho jovem talento da literatura brasileira”.

No Segundas Intenções, contou detalhes de sua recente produção literária, analisou a história recente do Brasil, a luta contra a ditadura civil-militar entre os anos 60 e 80 e a influência da religião judaica na sua formação de militante e cidadão. Também falou da carreira no jornalismo e de como esta profissão o ajuda e o atrapalha para fazer romances que flertam com a autoficção, gênero em evidência que tenta pactuar histórias que tem um pressuposto de verdade factual com formas de construção novelescas, onde o território dominante é a literatura. O escritor leu ainda trechos de seus livros, algo incomum no programa.

Analisando hoje, percebe que o jornalismo lhe deu a clareza e concisão, mas que o amarra um pouco no fazer literário, já que ele se considera racional demais. Em justaposição, está lendo João Ubaldo Ribeiro, autor “derrama palavras”. O baiano gosta de usar muitos adjetivos, por exemplo, algo que Kucinski não aprecia. Na sua visão, a medida certa entre leveza da literatura e a precisão de contar de uma trama está em José Lins do Rego, autor paraibano do regionalismo brasileiro.

Além de K, Kucinski publicou o livro de contos Você vai voltar pra mim, que ganhou o prêmio Clarice Lispector da Biblioteca Nacional de melhor livro de conto em 2015 e o policial Alice. Sua mais recente novela, Os visitantes foi lançada em junho do ano passado. Em setembro do mesmo ano, coloca no mercado o primeiro infantojuvenil: Imigrantes e Mascates. Antes de se tornar ficcionista, foi autor de várias obras sobe economia, jornalismo e política, com os quais ganhou o Jabuti em 1997, com Jornalismo Econômico, e em 2015, com Cartas a Lula.

Na BVL ele contou que jornalismo foi uma vocação e um prazer, motivado pela sua paixão pela escrita. Na época em que começou a trabalhar, a profissão tinha uma grande importância, ressaltada pela cobertura política externa tais como as guerras de libertação da África e o sangrento conflito no Vietnã.

Leitor voraz, logo percebeu uma simpatia pelo movimento juvenil de esquerda e sua formação foram escritores russos como Alexandre Pushkin e Anton Tchekhov e autores americanos com visão crítica da sociedade capitalista como John Steinbeck e Ernest Hemingway.

Crédito: Equipe SP Leituras

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Este engajamento permearia toda a sua vida. Em K conta a história real do desaparecimento de sua irmã mais nova, Ana Rosa Kucinski Silva, durante o regime ditatorial. Ela era professora da Universidade de São Paulo (USP) e sumiu em 1974. O romance esmiúça este drama familiar pela perspectiva do pai – um intelectual judeu que veio morar no Brasil fugindo da Segunda Guerra.

“Acho que a questão central do romance é a culpa. Muitas pessoas têm culpa por ter sobrevivido a repressão no Brasil enquanto o familiar, o companheiro não. É mais do que uma simples luta contra um sistema opressor, tal como está colocado em Franz Kafka. Meu pai veio antes do holocausto para cá e passou a reviver de forma dramática a violência com a filha. E ele nunca projetou nela um espelho de sua vida e atuação política na Europa”, conta o escritor.

Ele comenta que um desaparecimento é algo muito duro para os que ficam pois não existe a morte, o rito e o luto. Prossegue contando que entre os anos de 1973 a 1975, entre os governos do general Emílio Garrastazu Médici e Ernesto Geisel, se tentou uma distensão política e um movimento de abertura política, para então entregar o poder aos civis.

Mas esse movimento teve um grande enfrentamento interno dos aparelhos de repressão como o DOPS. Nesse momento, se intensifica a tortura dentro dos quartéis, aparentemente o sistema foge do controle. Para Kucinski era uma estratégia deliberada de eliminar toda a forma de oposição futura, de criar uma terra arrasada, a preparação para uma democracia sob controle.

Esses episódios de repressão culminam e ganham força em seu segundo livro, Você vai voltar para mim. Trata-se de uma coletânea de contos que traz relatos e depoimentos colhidos na Comissão da Verdade, uma tentativa de dar conhecimento e fato notório às histórias de tortura e morte que aconteceram no período.

Na obra, ele também faz a autocrítica com senso de humor e tratamento irônico das utopias socialistas, que, por exemplo, exaltavam a Albânia como um modelo de solidariedade, mas que na verdade era um país sob a égide de um regime de ferro. Contou também que no espaço de dois anos escreveu cerca de 150 contos sobre assuntos diversos, alguns deles presentes no livro.

Sua obra seguinte, Alice, é um policial que flerta com elementos da realidade. A inspiração veio após a leitura da obra de Leonardo Padura, autor cubano que ficcionalizou a morte do líder russo León Trotsky. “Acho um gênero muito interessante e que preza pela qualidade da escrita. O livro surgiu antes do K e conta a história de um detetive que investiga um crime numa universidade. Não só gosto deste tipo de livro como pretendo continuar escrevendo”.

10.06 - Segundas Intenções - Bernardo Kucinski - Equipe SP Leituras 3

Crédito: Equipe SP Leituras

Os visitantes é quase uma continuação de sua obra de estreia, onde compilou uma série de histórias que dialogavam com seu primeiro romance. Em uma delas, uma senhora vem corrigir fatos do holocausto presentes em K. Em outra, um conhecido da luta armada disse que sabia da existência de carta transcrita em K, mas que nunca tinha a lido. Pudera, a carta foi totalmente inventada. “Em K, me baixou um espírito para escrever. Em Os visitantes, tive que ter uma maior preocupação com a técnica. Mas o ponto de partida foram os episódios reais que trouxeram uma outra visão sobre aquelas histórias”, comentou.

Por fim, comentou sobre o infantojuvenil Imigrantes e Mascates, um dos livros em que mais teve prazer em escrever. Disse também não entender muito a separação entre faixas etárias e que adultos também gostam do livro.

O autor não falou apenas de sua carreira literária. Fez uma detalhada análise da política brasileira atual e do papel do PT nela – ele inclusive trabalhou na equipe do presidente Lula durante seu primeiro governo. Professor universitário por décadas, falou do embate de egos na academia brasileira, que pouco dialoga com a sociedade. E como curiosidade, contou que tem muitas ideias assistindo concertos de música clássica. Por fim, adiantou que seu próximo livro é de contos e tem o título provisório de O crime do marinheiro e outras histórias.

O próximo Segundas Intenções é na BSP com o escritor Juliano Garcia Pessanha no dia 24 de junho. Na BVL, o programa volta em julho com os autores Evandro Affonso Ferreira e Luiz Roberto Guedes no dia 8.

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