Lira Neto no Segundas Intenções

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Neste sábado, 3 de dezembro, a Biblioteca Parque Villa-Lobos (BVL) promoveu mais uma edição do programa Segundas Intenções, com um bate-papo com Lira Neto. O jornalista e escritor falou de suas biografias e contou detalhes sobre o seu mais recente lançamento, uma trilogia que vai examinar o gênero musical samba. “Ontem na madrugada enviei um e-mail com o manuscrito para a editora. Só quem escreveu um livro sabe alívio deste momento. Gosto muito de escrever e reescrever, ficaria mais um tempo mexendo no texto. Mas uma hora tem que acabar. A edição deve ser lançada próximo do Carnaval do ano que vem”.

Lira também falou um pouco sobre a atual situação política do país e fez pesadas críticas ao uso exagerado das redes sociais por parte das pessoas. Na visão dele, as redes sociais acirram o debate político e tornam difícil de perceber as nuances, as sutilezas e os tons cinzas do quadro político brasileiro. “As pessoas tomam posturas extremas e não sabem dialogar. Houve um empobrecimento do debate político. O território das redes sociais é o da barbárie”. Pessoalmente, tomou da decisão de deletar a sua conta em todas as redes sociais, que são um “vampiro de tempo”.

Ele não gosta de extremos, de polarização, e tenta sempre achar o caminho do meio. Acredita que sua função, como jornalista e escritor, é não buscar uma máxima objetividade, mas tentar ser isento o máximo possível. Buscar a maior quantidade de fontes possíveis é uma dessas maneiras. Relata que sua biografia sobre Getúlio Vargas tem na quarta capa textos assinados por Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva, dois presidentes que estão em espectros opostos no debate político. Conta também que a sua biografia de Castello Branco foi elogiada tanto por um general e como por um amigo militante de esquerda. “Quando a gente escreve, perdemos o domínio sobre o que está publicado. Cada um vai ver com a sua cabeça, o seu olhar, o seu filtro. Mas todos meus livros surgiram de uma inquietação”, disse ele, que está sempre atrás de uma boa história para contar.

A mais recente aventura é uma série histórica sobre o samba em três livros. O primeiro remonta o fim do século XIX e vai até 1932, quando a Mangueira foi bicampeã da Liga das Escolas. A segunda obra atravessa o que ele chama da Era de ouro do samba, de 1930 até 1945 – quando o rádio popularizou o gênero musical em todo o país. O terceiro tomo conta a história de 1945 até 1984, ano em que é inaugurado o sambódromo no Rio de Janeiro e o gênero se torna “mais televisivo”.

Ele ressalta que esse movimento de aproximação com o mercado se dá em vários momentos. Um exemplo é o cantor Francisco Alves, um dos mais conhecidos de sua época, que gravou inúmeros sambas de compositores como Cartola. “Todo o movimento cultural sofre a influência de seu tempo e as manifestações da cultura popular não são individuais, mas sim do coletivo. Não existe um autor, um lugar, uma data. Essa efeméride dos 100 anos do samba é totalmente arbitrária. A própria palavra samba pode ter origem africana ou ser derivada do tupi”.

No fim da palestra, ele fez um breve resumo de seus outros livros. Falou sobre o Padre Cícero: poder, fé e guerra no sertão, biografia do sacerdote Cícero Romão Batista, figura carismática e polêmica que foi excomungado, mas arrebatou milhões de fiéis. Outro destaque do bate-papo foi o Castello: A marcha para a ditadura, biografia do ex-presidente Humberto de Alencar Castello Branco. Sobre Getúlio Vargas, personagem que rendeu uma série de três livros, Lira Neto definiu como um homem que modernizou e desenvolveu a economia, mas que ao mesmo tempo também comandou uma das mais ferozes ditaduras estabelecidas no país.

O Segundas Intenções fechou o ciclo de palestras deste ano. O programa volta em 2017 a partir de fevereiro, sempre com a curadoria e a moderação do crítico literário Manuel da Costa Pinto. Até a volta. Boas festas!

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