Laerte no Segundas Intenções

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Neste sábado, 9 de julho, a Biblioteca Parque Villa-Lobos (BVL) promoveu o Segundas Intenções com a quadrinista e chargista Laerte, que falou de sua carreira profissional e provocou um debate sobre gênero, sexualidade e relações homoafetivas.  A condução do bate-papo foi do jornalista e crítico literário Manuel da Costa Pinto.

Laerte começou a trabalhar para sindicatos como o dos têxteis. Era membro do Partido Comunista e tinha uma “grande vontade de estar junto do movimento operário, mas um receio de cair nas garras da repressão”. Por sugestão do então sindicalista Lula, fundou em 1978 a Oboré, uma cooperativa de jornalistas que colaborava com movimentos sociais na área de comunicação.

Em 1982 passou a trabalhar na Folha de S. Paulo. Com a abertura do país e o fim da ditadura, o jornal passava por uma renovação, com uma linha editorial mais diversificada e ampla. Naqueles tempos, as tiras diárias era ainda um território ocupado pelos distribuidores americanos. Então ela, Glauco e Angeli buscaram abrir espaço e colocar a realidade brasileira em suas produções. Contribuiu para esse processo a criação de uma agência de distribuição de conteúdo gestada no governo Sarney, uma iniciativa de Ziraldo, que chefiava a Fundação Nacional de Artes (Funarte).

A ideia deu certo e abriu mercado. Por um tempo, passou a publicar a tira Condomínio no Estado de S. Paulo e Piratas do Tietê na Folha. “Fazer duas tiras era algo esquizofrênico. Um tempo depois sai do Estadão e fiquei só na Folha. Fundi as duas tiras em uma só”. A quadrinista também falou sobre seus outros sucessos como Overman, “um herói com supercomplexos” e Los 3 Amigos, em parceria Angeli, Glauco e Adão Iturrusgarai. Além disso, foi colaboradora de revistas como Piratas, Circo, Pasquim e Placar e escreveu roteiros para a televisão em programas como TV Pirata e TV Colosso, ambos na Rede Globo.

A transgeneridade veio na sua vida como um estalo. Contou que estava desenhando uma tira do personagem Hugo fugindo da máfia. E o personagem se vestiu de mulher para completar a ação. Neste momento, disse que não achou aquilo engraçado e escreveu que “às vezes um cara tem que se montar”. Uma amiga viu e perguntou se queria participar de um grupo de cross-dressing, ou seja, se vestir de mulher.

Era algo que estava latente, mas que veio à tona. Com o tempo, mudaria a sua orientação sexual e militaria nas questões de gênero e trans. “O Alan Bennett, do livro A senhora da van, falou sobre isso. O escritor não tem que ser pôr naquilo que escreve, mas se encontrar naquilo que escreve. Acho que foi o que aconteceu comigo”.

Sobre o Brasil atual, analisa com muita preocupação o crescente conservadorismo no país, muitas vezes de cunho religioso. E afirma que a homofobia ainda é muito forte no Brasil e mata. “Ao mesmo tempo que temos Paradas de Orgulho Gay muito pujantes, temos um conservadorismo doentio, simplório e manipulador”.

Por fim, fez uma análise sobre o jornalismo brasileiro, que na sua visão “se entregou de maneira despudorada ao jogo político”. Acha que uma regulamentação da mídia é fundamental para acabar com monopólios e trazer mais diversidade de opiniões. “Isso não é controle. A mídia brasileira não pode estar nas mãos de cinco ou seis famílias”, finalizou.

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